Posts Tagged 'Lennon'

Feliz aniversário!

09/10/1940 – 08/12/1980

Eu não vou nem tentar escrever algo sobre o cara. Mas se quiserem, fiquem à vontade.

Não percam a homenagem do Google:

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Bloody Sunday: meia justiça, meio Halley depois

Eram poucos. Do esquadrão de elite, mas muito poucos. Por serem do esquadrão de elite, seu reflexo é neuroticamente aguçado, e para atirar. Atirar para matar.

Deve ter começado com um estouro, forte e súbito, vindo de sei lá onde. Ou com uma ameaça putativa. Um grito de socorro do colega. Hoje, não importa. Importa que isso fez com que o primeiro soldado desse o primeiro tiro.

Num grupo de elite coeso, no meio daquela bagunça, não dá tempo de parar para perguntar: “com licença, estamos ameaçados mesmo?” Confia-se no colega. Se alguém atirou numa simples manifestação de civis, é porque tem algo a mais. Então, todo mundo começa a atirar.

Minutos depois, civis desarmados jazem mortos, feridos, fuzilados.

O destacamento que atirou foi de para-quedistas. Na maior parte dos exércitos do mundo, os para-quedistas são o top do top, afinal, você só os lança bem no âmago do território inimigo. Se a equipe não for a nata da elite, vira picadinho.
Assim, independentemente de qual foi o soldado que deu o primeiro tiro, é óbvio que o governo britânico foi diretamente responsável. Mandar uma tropa essencialmente guerreira no meio de civis foi uma insanidade que não ia dar coisa boa. Arrisco a dizer: não era para dar coisa boa mesmo. Ou a Inglaterra via a Irlanda como “território inimigo não explorado”?

Que bom que o Relatório Saville, finalmente, concluiu pela inocência dos civis mortos no Domingo Sangrento – e, por conseguinte, pela responsabilização dos atiradores. Notem a insanidade: era a responsabilidade das vítimas que estava sendo investigada diretamente. Como profetizou Lennon, que escreveu sua própria Sunday Bloody Sunday bem antes (e melhor) do que o U2: “Is there any one amongst you / Dare to blame it on the kids?”

O passo seguinte será não ficar por isso mesmo, isto é, os soldados receberem toda a culpa, virando bodes expiatórios. O governo britânico deve ser responsabilizado – financeiramente.

É claro que não há dinheiro que faça aquela desgraça deixar de ter ocorrido. Mas como o bolso é o órgão que mais dói, quem sabe assim o Estado não sente um pouquinho da dor dos familiares das vítimas. Estado, leia-se, os súditos britânicos. Talvez os faça pensar melhor que, talvez, deixar a Irlanda para os irlandeses seja mais negócio.

Curiosamente, o relatório levou 38 anos para ser concluído – exatamente a metade do tempo que leva para o Cometa Halley passar para tomar um chá conosco.

76 anos...

Vamos torcer para que a Justiça Britânica não leve ainda 38 anos para justiçar.

Dia internacional da lembrança da luta pela igualização dos direitos da mulher aos do homem

Esse enorme título é o nome completo da comemoração do dia 8 de março. Metonimicamente, dizemos simplesmente “Dia Internacional da Mulher” . O problema é que é fácil notar que a abreviação tem tomado o lugar do nome, e o sentido do 8 de março está um tanto quanto embotado, afogado em meio a lembranças, anúncios e promoções especiais fofinhos e rosinhas. A parte apaga a memória do conteúdo do todo. Chega a ser irônico: o dia da luta pela igualdade das mulheres é “comemorado” com um mundaréu de estereótipos – fofura, cor de rosa e os falsos elogios de que Lennon já alertava: While putting her down we pretend that she’s above us.

Assim, é sempre bom beber da história para refrescar a  memória: O 8 de março foi escolhido, entre outros motivos, em razão de um horrendo incêndio numa fábrica dos Estados Unidos em 1911, cujas vítimas foram principalmente mulheres. Assim, quando vejo, hoje, anúncios como “vocês são especiais” ou “hoje é o seu dia”, fico muito incomodado. É impressionante como o caráter trágico e engajado da data foi transmutado numa coisa tão amena. E como as mulheres só tivessem voz uma vez por ano. Uma catártica data de mudança foi absorvida e reciclada como conformidade.

O cartunista Laerte satirizou isso numa fantástica tira que não consigo encontrar: 5 marmanjos estão amontoados num sofá, com a pobre mãe espremida no meio. Um deles diz: “Hoje é dia das mães. Vamos deixar a mamãe assistir um pouco de TV Mulher!” Outro responde: “Tá, mas só no intervalo do jogo”.
(Quem achar essa tira ganha um sorvete. De creme.)

Assim, vou, a seguir, restaurar um pouquinho da pitada revolucionária do dia a partir de 2 notícias.

A primeira, já mais ou menos antiga e sabida, é daquele juiz de Sete Lagoas que, em meio a várias insanidades, afirmou a inconstitucionalidade da Lei Maria da Penha. Afinal, a mulher, sendo instrumento do demônio, deve ser controlada pelo homem, inclusive e principalmente com violência. Seria excelente se essa argumentação burlesca fosse a única resistência encontrada pela Lei. Entretanto, como cita esta juíza, houve quem sustentasse a inconstitucionalidade dessa Lei por “privilegiar” as mulheres! Acho surreal alguém sequer pensar isso. Pior ainda, publicar. Não perceber que, já faz um bom tempinho (tipo uns 2500 anos), nossa sociedade é claramente patriarcal, e que desigualações corrigem desigualdades, ou é uma enorme cegueira ou desabrida má-fé.

A segunda é um artigo da Slate, que fala sobre uma “volta” da repressão sexual. Segundo a autora, há ciclos de liberdade/repressão sexual.

O problema é que, quando falamos de “repressão sexual”, invariavelmente falamos de “repressão sexual feminina“. Quando Agamêmnon volta trinunfante de Tróia, é natural que ele tenha trazido uma presa de guerra – traduzindo para bom português, escrava sexual. Igualmente natural é a profunda indignação dos deuses com a vingança de sua esposa Clitemnestra. Ela, por ter se revoltado contra isso, traiu o marido. O marido, que  sacrificou a própria filha por causa do irmão corno e esperava que a esposa achasse maneiro ele entrar triunfalmente na cidade com a ex-futura amante fixa a tiracolo, é o coitadinho.
(Obs.: É claro que há muitos mais motivos para a reprovação do ato de Clitemnestra, inclusive, er, o de ser um assassinato, o qual não chancelo. Mas não convém desenvolver isso agora.)

2300 anos depois, Conceição, personagem feminina da Missa do Galo, magistral conto do glorioso Machadão, acha “até muito direito” seu marido ter amante fixa.

Mais recentemente, Ian McEwan, em On Chesil Beach, situado em 1962, fala de um casal virgem na noite de núpcias. Ele, apesar da insegurança, até que se sai bem. Ela, porém, sofre de um irracional e insuportável asco de sexo. Ou seja, quem está sujeito a ter nojo do maior dos prazeres é a mulher.

E hoje, como se não bastasse, apesar da revolução sexual, ainda temos a perspectiva de que, conforme a Slate alerta, a repressão recrudesça.

Enfim, espero que todos quantos leiam esse humilde (ha, ha) post passem a olhar além das expressões abreviadas que critiquei e a manter a consciência do que nelas está velado. Ou, parafraseando a Clarice, que evitem deixar que a metonímia esmague o todo.


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