Caiu da cama e machucou a testa

Numa antiga história da Turma da Mônica, a dita-cuja e sua mãe brincam de apresentar programas de televisão em casa mesmo. A finalidade era convencer o pai a levar o televisor para consertar – coisa que, visivelmente, ele estava enrolando para fazer.

Um dos programas era um telejornal, e elas diziam:

– O ministro da Fazenda caiu.

– Caiu da cama e machucou a testa.

Pois é, como Mônica e sua mãe já tinham nos avisado, Palocci machucou a testa. Embora como ministro da Casa Civil – mas a piada é quase perfeita, pois ele também caiu como Ministro da Fazenda em 2006.

O Vinicius, comentando o post anterior, usou uma boa expressão: Palocci tinha um telhado de vidro. Mas não é nem no catastrófico caso Francenildo que estou pensando. É porque lembro bem de que sempre rondaram boatos acerca do envolvimento de Palocci em corrupção – mais especificamente, relacionados à sua gestão como prefeito de Ribeirão Preto.

Some-se a isso que, desde Lula, o ministério da Casa Civil é um cargo sobremaneira e especificamente visado. Se o sujeito aprontou alguma coisa, ainda mais se for do PT, ela vai aparecer. Observação: “Ainda mais” porque boa parte da mainstream mídia opõe-se francamente o PT, o que significa um batalhão de gente a mais procurando pêlo em ovo. E, eventualmente, achando.

É até uma questão de probabilidade: Se tiver 1% de jornalistas investigativos competentes, a maior chance é de que ele esteja trabalhando para a mídia mainstream.

Sem contar que às vezes tem gente do próprio partido de olho naquele cargo. Ou, pelo menos, não querendo deixar o inimigo permanecer lá. Por exemplo, o mesmo Hugo hipotetiza que Rui Falcão pode ser um dos que estão por trás disso.

Vejamos: Com Dirceu, acharam o Mensalão. Com Erenice, o até hoje mal explicado tráfico de influência. Com Dilma, nada. Assim, eu imaginei que, até pela experiência própria, Dilma fosse escolher um nome acima de suspeitas, pelo menos para a Casa Civil. E ela põe justamente alguém sobre quem, como disse, rondavam boatos de corrupção. Que só ganharam substância com o caso Francenildo.

Tudo bem que Palocci é competentíssimo. Isso, creio, está acima de dúvida. Mas botar o cara num cargo desses, em razão do qual sua vida será inteiramente devassada, sem se certificar antes de que está tudo limpo, foi um erro grave. Grave porque, pelas circunstâncias, era razoavelmente previsível. Agora, o governo paga por isso.

E a sociedade também, pois o “custo Palocci” custou-nos batalhas caras como o kit anti-homofobia e, quem sabe, até o Código Florestal. Isso sem contar outras articulações de bastidores cujos efeitos ainda estão por aparecer. Nesse sentido, a queda de Palocci é mais do que bem-vinda. Pelo menos por enquanto, o governo não vai precisar fazer concessões excessivas (lembrando que concessões são parte do jogo democrático).

Quanto à substituta temporária, Gleisi Hoffmann, eu nunca tinha nem ouvido remotamente falar. E creio que não sou só eu. Mas, pelos meus próprios argumentos, isso traz bons augúrios. Pode ser que a alta cúpula do PT tenha estado, justamente, devassando “casaciviláveis” para ver quem tinha ficha limpinha. Daí, caíram fora montes de nomes famosões, sobrando só a Gleisi.

Torçamos para que tenha sido assim. Não custa repetir: um escândalo desses é ruim para todo mundo. Enquanto dura, o governo perde tempo; o Congresso desvia o foco; a sociedade perde batalhas. E teria o lado bom de recuperar a boa fama das mulheres na Casa Civil, conspurcada por Erenice Guerra, que fez o favor de pisotear o que a própria Dilma tinha construído.

Perdoem-me a prolixidade, mas é a última consideração: a movimentação inclusive na oposição para barrar investigações contra Palocci parece-me um forte indício de que, no mínimo, tem muita coisa por trás da evolução patrimonial de Palocci. O cara deve ser um arquivo vivo. Acho até que o que o mantém como “vivo” é que tem muito mais gente interessada nele assim do que, com o perdão do trocadilho infeliz, como arquivo morto. Esta frase que vi no Twitter resume espetacularmente: “Palocci caiu em 2006 por violar sigilo fiscal — de um pobre. E agora cai por manter sigilo — de ricos.” (FAngelico)

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4 Responses to “Caiu da cama e machucou a testa”


  1. 1 brandizzi June 8, 2011 at 11:27

    Olá, HWBB!
    Achei a análise ótima porque bate exatamente com o que imaginei. Muito boa!
    Até!

    • 2 hwbach June 10, 2011 at 12:27

      Obrigado!

      Quer dizer então que você também lembrou da Turma da Mônica? :^D

      Aliás, o que houve com o seu avatar anterior? Erm, o que era o avatar anterior?

      • 3 brandizzi June 13, 2011 at 14:06

        Hahah, não, a história da Turma da Mônica eu não conhecia… mas a análise política é mais ou menos o que eu imagino, na minha ignorância.

        Quanto a meu antigo avatar, é uma antiga piada da Internet, o Limecat (http://ohinternet.com/Limecat) A piada corria solta por volta de 2004 e eu acho a figura engraçadinha… Mas agora, sou um homem adulto (vou até casar essa semana, olhe só!) e não posso ficar usando avatares de piadas da Internet, né? 🙂

        Até!

  2. 4 Hugo Albuquerque June 19, 2011 at 15:48

    HWB,

    Palocci é competente até certo ponto, mas também é um sujeito que cresceu no partido meio de cima para baixo – por ser um técnico na área econômica e habilidoso na captação de recursos para campanhas – e, depois, porque Lula lhe deixou numa posição de destaque para neutralizar um pouco a influência de Dirceu e, assim, não ser comandado no seu próprio governo. Suas ideias, no entanto, são quase que uma versão com face humana do social-liberalismo tucano – e acho que ele sempre se imaginou como uma espécie de Blair brasileiro, alguém que roubaria o programa dos rivais, melhoraria ele e se tornaria o manda-chuva.

    Mas sempre lhe faltou malandragem para não transparecer suas ambições e isso fez com que, logo de cara, ele tivesse a oposição visceral de pelo menos um terço do partido e a desconfiança dos caciques. Seus inimigos, aliás, tinham um importante trunfo que era justamente o tal do telhado de vidro – e eu posso te garantir que <Palocci só conseguiria realizar seu sonho de ser Presidente fora do PT ou no PT por meio de um golpe, porque "corrupção em Ribeirão Preto" é o que há de mais leve nos dossiês que circulam em Brasília sobre ele.

    Se quem criou o fenômeno Palocci foi Lula, quem o ressuscitou também foi ele. Para o desgosto do partido e até de Dilma. Uma vez no comando, o novo ministro-chefe da Casa Civil tratou de ampliar seus tentáculos e lançar um ataque violento contra Guido Mantega e a equipe econômica, criando factóides em relação à política econômica: E isso ia desde um exagero do problema inflacionário até uma distorção sobre os ajustes econômicos – naturais dentro de uma perspectiva de superávit contraciclíco, onde se economiza na fase de crescimento para gastar nas fases de vacas magras -, sendo o último factóide não muito diferente daquilo que Serra dizia nas últimas eleições contra…Dilma…

    Aí, ele despertou a ira de Deus e o Mundo, inclusive do novo comando petista, a cargo do exímio burocrata Rui Falcão que não mobilizou o partido, em momento algum, em apoio ao ministro bombardeado. Na medida em que boa parte das alas que compõem a CNB – campo majoritário, que controla uns 55% do partido, hoje – se rebelaram contra Palocci junto com a Novos Rumos – que controla um pequeno naco, mas tem muito dinheiro, influência e a presidência do Partido agora -, já tinham de cara o apoio da esquerda petista que representam um terço da legenda. Não fosse a intervenção de Lula, numa de suas piores intervenções em toda sua carreira política, e o cara teria caído antes. De certa maneira, quem diz que não houve fogo amigo – como o Idelber – tem razão: Palocci jamais foi visto como companheiro ou amigo pelos grão-petistas, quem sabe como um aliado – se ele ficasse no seu cantinho tudo bem, mas no momento em tentasse alçar voos mais altos fim de papo.

    Sua queda foi ótima para o partido, o problema é que demorou a acontecer e nos dias dramáticos entre o início das denúncias e sua queda, Dilma cometeu erros importantes ao tentar negociar uma saída que mantivesse o ministro do cargo. Era com aquele ônus que ela não deveria ter arcado, gostasse Lula ou não. Ter alguém com o perfil de Gleisi na Casa Civil é positivo – ela é uma boa gestora, tem uma boa imagem -, mas desde que você passe a bola da articulação política para alguém experiente e com tato político, o que não foi o caso e isso, para mim, vai ficar claro tão logo.


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