A recente série de notícias ruins, parte 1 – Mau humor

As últimas notícias têm me deixado de péssimo humor.

I)

Começa que, como notou o Alon, a Dilma realmente não me vingou lá na China. Droga. E, como o Sakamoto não cansa de denunciar, o progresso a todo custo está massacrando o Norte do país. Agora, com o pretexto do cronograma da Copa e das Olimpíadas. Sem contar a omissão governamental em relação às sistemáticas expulsões de populações indígenas por criminosos do agronegócio, quando não assassinato mesmo, inclusive do movimento extrativista.

O governo vem mantendo uma certa coerência danosa: direitos humanos são centrais no discurso, mas não na prática, principalmente quando envolve parceiros comerciais e construção de infra-estrutura de desenvolvimento – hidrelétricas, obras para a Copa etc.

Quanto à recusa em receber a Nobel da Paz, mantenho um certo agnosticismo. Como a própria matéria diz (mas meio escondido), o governo não tem recebido qualquer dos lados. Mas mesmo isso está longe do ideal. Se direitos humanos são mesmo tão centrais, a presidente Dilma deveria era receber apenas o lado dos oposicionistas e mandar a turma pró-Ahmadinejad comer capim. Afinal, se ela pode ir a outros países tratar só de negócios e ignorar os direitos humanos, por que os outros países não podem fazer essa “gentileza” conosco?

II)

Palocci foi pego de calça curta com uma mega evolução patrimonial. Que só tem ficado problemática em vista de suas respostas que mais escondem do que mostram. Com direito a uma horrorosa comparação com antecessores do governo FHC. Achei isso um péssimo movimento político. Acaba trazendo para a questão a rivalidade PT x PSDB, provavelmente só para jogar fumaça. Ou seja, manobra evasiva. Só que quem não deve, não treme.

Por outro lado, se sua evolução foi ilícita, porque ele a declarou no Imposto de Renda? Talvez para esconder evoluções ainda mais astronômicas?

Tendo em vista a movimentração do governo, parece que tem a ver com qualquer coisa de escusa.

De qualquer maneira, como nota o Hugo, isso só traz à tona um problema mais fundo, relativo à democracia que queremos e como ela se adapta ao capitalismo: “não é o fato de [ex-membros do alto escalão] deixarem o cargo que apaga o conhecimento que eles tinham sobre detalhes estratégicos do funcionamento do Estado, o que, nas mãos de particulares, podem produzir efeitos gravíssimos contra a coletividade.”

III)

Lá no STJ, foi proferida uma medonha decisão, permitindo que um banco se limite a ter apenas a acessibilidade prevista na ABNT. Quer dizer, dane-se a Constituição. Como dizia um professor, “na sua vida profissional, você vai ter de decidir se a Constituição vale alguma coisa ou não. Parece óbvio, mas não vai ser.” Nesse caso, a 4ª turma do STJ decidiu que a Constituição não vale. Decidiu que a norma técnica prevalece. Norma que, aliás, nem tem essa pretensão, e cuja finalidade certamente não é limitar a acessibilidade.

Torçamos para que as outras turmas destoem, pois as orientações do STJ, como em qualquer tribunal, oscilam ao longo do tempo. Com o tempo, talvez a própria Ministra se curve à Constituição.

IV)

A furiosa reação contra o livro do MEC que “ensina a escrever errado”, aparentemente, foi só um factóide. Talvez um pequeno indício de esgotamento da boa vontade inicial de que os governos costumam gozar. O Nassif impreca de modo um tanto exagerado, mas a CartaCapital foi mais sóbria e, a meu ver, bem mais contundente: transcreveu exercícios do livro que, inversamente ao divulgado, cobra dos alunos reescrever frases coloquiais segundo as regras da norma culta.

Ops.

A medonha reação do Haddad também não ajuda. Repito a advertência de Robert Fisk, com um acréscimo pessoal: Deixem a porra da 2ª Guerra em paz. Em vez de desqualificar os críticos, o que Haddad tinha de fazer era, simplesmente, mostrar que o livro não “ensinava a escrever errado”. Era só mostrar o exercício mencionado acima. Quer dizer, uma revista fez o trabalho do Ministro da Educação melhor do que ele mesmo! Bola fora.

Aliás, a picuinha do Estadão contra um erro de impressão parece um bom indício de que o caso do livro “Por uma Vida Melhor” seja realmente um factóide. Tudo bem cobrar o governo por pequenos erros que geram grandes prejuízos. Mas uma chamada como “Quanto é 10 menos 7? Para livros do MEC, a resposta é 4” beira a má-fé:

 

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2 Responses to “A recente série de notícias ruins, parte 1 – Mau humor”


  1. 1 Vinícius de Melo Justo June 7, 2011 at 20:56

    Como se sabe, usar o partido ou algo dado pelo partido para enriquecimento pessoal é algo que deixa as bases do PT muito fulas. Mas parte da queda de Palocci é devida às suas posições políticas, e nesse caso lamento muito.

    Ninguém mandou querer faturar contando com um telhado de vidro já estilhaçado pelos problemas anteriores com violação de contas bancárias. No PT muita gente queria se livrar dele, e vamos ver como a Dilma reage a isso.


  1. 1 Caiu da cama e machucou a testa « He will be Bach Trackback on June 8, 2011 at 00:20

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