Dilma continua me vingando. Er, em parte.

Ao encontrar Dilma, Lula novamente quebrou o protocolo. Ele segurou e ergueu o braço da presidente em frente ao público

Conforme matéria do Estadão, parece que Dilma vai, sim, aproveitar a viagem à China para tratar de direitos humanos. A postura parece marcadamente diferente da de Lula, que, em viagem a Cuba, além de se omitir sobre o assunto, ainda ofendeu grosseiramente os presos políticos cubanos numa declaração sumamente cínica.

Quer dizer, quanto a se omitir, dá até para entender. É complicado mesmo ficar enfiando dedos nas feridas dos países que te recebem, até por, digamos, cortesia com o anfitrião. Esse, se não me falha a memória, era um dos principais argumentos do Idelber a favor do Lula.

Só que, daí para ofender, passou da omissão à ação mais infeliz.

Dilma, por outro lado, para usar uma expressão do Alon, está mostrando muito mais serviço colocando os direitos humanos na centralidade do debate. E, contrariando o receio expresso nesse artigo, mencionará o tema na visita à China.

Mas por que diabos, apesra de tudo isso, eu abri o parágrafo dizendo que a postura de Dilma parece marcadamente diferente?

Porque a lição de casa não está sendo feita aqui. O essencial Leonardo Sakamoto tem martelado muito essa tecla – e que bom que o faz. Cito apenas este post sobre Jirau como exemplo. A situação por lá está tão feia que até a OEA deu um pitaco no Brasil em relação a um projetão ali pertinho, em Belo Monte. Este, por sua vez, reagiu  com um belo de um “foda-se”. O mesmo Sakamoto, compreensivelmente, ficou assaz puto e aproveitou para nos fazer o ótimo favor de coligir indignações locais.

Quer dizer, é relativamente muito fácil ficar só dando pitaco nos outros sobre direitos humanos, embora a pregação faça, sim, parte de sua realização. Mesmo as dificuldades que mencionei acima são pequenas se as compararmos com fazer a lição de casa. Ou pelo menos mostrar disposição em fazê-la.

É o caminho fácil: em toda viagem internacional, a presidente coloca os direitos humanos na centralidade do debate. Ganha muitos pontos e credibilidade. Aqui dentro, faz vista grossa para situações horríveis como a de Jirau ou dúbias como a de Belo Monte.

Até mesmo em termos de estratégia política isso é péssimo. Dá combustível para seus adversários dizerem: “Ela só quer saber de direitos humanos contra seus algozes. Na sua menina-dos-olhos que é o PAC, direitos humanos são convenientemente engavetados.”

Por isso, uma política de direitos humanos parcial tão incoerente acaba produzindo menos efeitos do que a parte atendida. Quer dizer, a parte do efeito positivo obtido com as Comissões de Verdade será minimizada pela incoerência institucional. Sem contar a incoerência internacional de “desfilar um voto contra o Irã” mas “ficar em cima do muro na questão líbia” (expressões do post alonesco supra citado).

E o que nós podemos fazer? Cobrar, simplesmente. Criticar. Desfraldar a bandeira. E, como faz o Sakamoto, mantê-la aberta. Inclusive, deputados federais e senadores estão aí para isso. Nós é quem votamos neles, lembram? Ah, por acaso também votamos para presidente.

Mas e no total, o que eu acho disso? No total, ainda acho que a coisa está boa. Por todo que expus, Dilma está me decepcionando, mas em boa parte também está me vingando. Sua postura em relação a direitos humanos, ainda que incoerente e titubeante no todo, é contundente nos pontos em que se afirma. E é muito superior à de seu antecessor. Diria até, inédita.

(Foto: Brasil Econômico)

Advertisements

2 Responses to “Dilma continua me vingando. Er, em parte.”


  1. 1 Hugo Albuquerque April 9, 2011 at 22:32

    HWB,

    Então, eu critiquei a postura brasileira durante o Governo Lula em alguns pontos. Uma delas é que não dá para fazer realpolitikismo com direitos humanos – como Lula fez -, mas também não dá para cair no outro oposto, que é a própria demagogia ocidental em termos de DH – sim, eu sei, Dilma condenou também Guantánamo, mas o que eu acho que é preciso mais realismo e concretude nisso daí para não cair (mesmo que acidentalmente) na outra forma de cinismo.

    Recentemente, eu escrevi sobre a Comissão da Verdade e sua ligação com as pautas geoestratégicas do Brasil. A liquidação da ditadura que ainda há entre nós é pauta central para que, veja só, o Brasil se torne esse player global que o mundo precisa que ele seja. Quanto ao PAC, é preciso sim pensar nas suas consequências, senão caímos naquela coisa positivista da Ordem e do Progresso – onde você tem que marchar da maneira (e na velocidade) exigidas para não ser deixado para trás ou para não ser simplesmente pisoteado. Isso é parte do que eu chamo de realismo e concretude em termos de DH.

    No plano externo, desculpe-me a Presidenta, mas é batido e infrutífero chegar em um lugar como a China e falar que eles infringem os direitos humanos. É preciso construir saídas mais concretas de diálogo e pressão do que jogar para as plateias primeiro-mundistas. Primeiro porque os direitos humanos são um modo universalizável de convivência – não um universal inerente ao homem -, fato que se revela quando você se depara com uma civilização ancestral e singular como a chinesa, segundo porque o sistema político-econômico instituído pela Revolução de 1949 – com intuito modernizatório – tem mesmo uma dinâmica problemática. Como lidar com isso? Diálogo e uma pressão intensa que passe pelos bastidores – com a imposição de perdas econômicas, se for necessário. Menos lorota e falas de impacto ajudam bastante.

    abraço

    • 2 hwbach April 18, 2011 at 21:25

      Futuro dr. Hugo,
      1) “mas o que eu acho que é preciso mais realismo e concretude nisso daí para não cair (mesmo que acidentalmente) na outra forma de cinismo.”
      Concordo plenamente!

      2) “A liquidação da ditadura que ainda há entre nós é pauta central para que, veja só, o Brasil se torne esse player global que o mundo precisa que ele seja.”
      Sem dúvida. E isso conta muito mais para uma eventual cadeira permanente lá no CS da ONU do que bomba atômica. E duas birras minhas particularmente grandes contra o Lula são: 1) a própria pretensão da cadeira permanente, que é muito mais ambição do que algo que trará benefícios concretos para o Brasil; e 2) o fato de ele ter acenado, ainda que sutilmente, à bolsonariana opinião de que uma bomba atômica tornaria o Brasil mais próximo dessa cadeira.
      Tá, eu sei, o item 2 é questionável. Se quiser ver uma defesa mais sólida, procure no histórico do Alon as referências a respeito. Estou com preguiça de fazer isso numa resposta a um comentário. 😀

      3) “No plano externo, desculpe-me a Presidenta, mas é batido e infrutífero chegar em um lugar como a China e falar que eles infringem os direitos humanos.” Pois é. E ainda se arrisca a tomar um “vocês tambe-ém, nhé-nhé-nhé-nhé-nhéeeem!” de volta.

      4) “com a imposição de perdas econômicas, se for necessário”
      E esse é o grande problema. É um treco delicado, porque essas perdas econômicas podem ter impacto nas políticas sociais. Ou ainda, o próprio fato de essas perdas poderem ter impacto nas políticas sociais é uma excelente desculpa para dar uma de Joana-Sem-Braço.


Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s




Últimas piadas

Calendário gregoriano

April 2011
M T W T F S S
« Mar   Jun »
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
252627282930  

Almas perdidas

  • 9,910 almas

%d bloggers like this: