Inaugurando a série “Famosos desconhecidos”: Aram Khachaturian

Esse formidável compositor armênio (1903-1978) legou-nos obras manjadas como a Dança do Sabre e o Adágio de Spartacus e Phygia, mas elas, infelizmente, ofuscaram o magnífico corpo de sua obra. Ele é “desconhecido” porque, apesar dessas obras manjadas, ele é pouco conhecido. Por exemplo, meio que todo mundo associa a 5ª Sinfonia ao velho Ludwig, os Concertos de Brandenburg a Bach e o Bolero a Ravel. Mas quantos associariam a Dança do Sabre a… er… quem?

Mas é “famoso” porque ele foi um personagem importante na música do século XX. Seus colegas de União Soviética eram ninguém menos que Sergei Prokofiev e Dmitri Shostakovich. Sofreu com eles a infame censura do orwelliano Decreto Jdanov. E dedicou obras a solistas até hoje famosos, como o violinista David Oistrakh.

Sua obra sofre do mal auto-alimentado do ostracismo: uma vez que uma obra cai no mundo do “desconhecido”, ela tende a ficar mais “desconhecida” ainda, pois cada vez menos gente as traz ao público, ainda que as conheça. Geralmente, pura mesquinhez do intérprete.

Como se não bastasse o ostracismo, seu Concerto para Piano em Ré Bemol também é vítima de amnésia crônica por causa de sua dificuldade transcendental, até para os parâmetros dos virtuoses. Poucos são doidos o suficiente para tocar esse treco, entre os quais está a também armênia Liza Kechichian, atualmente residente em São Paulo.

Diga-se de passagem que essa equação  “ostracismo inicial” + “dificuldade alta” = “ostracismo astronômico” afeta até mesmo a obra amplamente estudada de um compositor como Beethoven. Falo da Sonata em Fá no. 22, op. 54, por exemplo.

Sendo um concerto raro, é dificílimo achar gravações, e menos ainda apresentações no YouTube. Mas, graças sejam dadas ao francês Jean-Yves Thibaudet e à televisão japonesa NHK, que nos proporcionaram uma gravação completa em alta qualidade. Animalidade absoluta garantida. Assistam antes que saia do ar!

1º movimento, Allegro non troppo e maestoso – parte 1

1º movimento, Allegro non troppo e maestoso – parte 2

2º movimento, Andante con anima

3º movimento, Allegro brillante

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7 Responses to “Inaugurando a série “Famosos desconhecidos”: Aram Khachaturian”


  1. 1 brandizzi January 21, 2011 at 19:22

    Obrigado por esse post! Já deveria agradecer só por informar o nome e autor da “Dança do Sabre”. O Adágio eu não conhecia, mas foi uma das coisas mais lindas que já vi/ouvi na internet. Realmente, esse Aram Khachaturian – que só conheci agora! – merecia mais reconhecimento.

    Até!

    • 2 hwbach January 23, 2011 at 16:59

      Tanto o balé Gayane (de onde vem a Dança do Sabre) quanto o Spartacus são belíssimos, saltitantes e transbordam de melodias assobiáveis. Procure uma gravação baratinha (aquelas da Royal Philharmonic; a minha custou uns 15 mangos) com pedaços dos balés que você vai adorar.

      Aliás, a melodia do 2º movimento me lembra bastante o movimento lento do Concerto para Violão de Joaquin Rodrigo. Impressão minha?

      • 3 brandizzi January 27, 2011 at 12:38

        Vou caçar as gravações. Agora, não achei o segundo movimento tão semelhante assim ao concerto para violão*… que, por sua vez, é lindo e não conhecia também. Mas note que meu ouvido é mal treinado, o máximo que consigo dessas músicas é ouvi-las, apreciando a beleza e sentindo saudade de algo que não existe 🙂

        Pô, sério, essa sua série começou maravilhosa, inclusive para o link para o concerto de Joaquin Rodrigo. Estou ansioso pelos próximos posts!

        * Este concerto, aliás, me lembrou um carinha curioso que descobri esses dias: http://suspensaodejuizo.wordpress.com/2010/08/29/ehma/

        • 4 hwbach March 8, 2011 at 17:11

          Hehe, obrigado! Eu pretendo enriquecer a série com exemplos extramusicais (esse caso já não tinha hífen antes da reforma, né não?)

          E obrigado pela indicação do Ehma. A música é mesmo muito legal!!

  2. 5 kaspar boyadjian February 14, 2011 at 11:28

    Na decada de 50 a coletividade armenia de sao paulo trouxe o compositor para duas rgencias no tatro municipal. Tive o privilegio de assitir as duas apresentações. Um jovem pianista russo tocou o concerto, objeto de seu post. Penso que se chamava Alexander Iankov. Meu pai fazia parte da comissão de recepção aos ilustres convidados. Lebro que na ocasião Khachaturian comentou com meu pai que estava compondo Spartacus, a historia de um escxravo que liderou uma revolução contra o impérioi romano. hoje entendo que o compositor fez na verdade uma metáfora com duploi sentido:
    1ª-iludir o stablishment soviético co uma alusão à revolução de 1917;
    2ª- encarnar ele mesmo o papel de Spartacus com seus gladiadores, os músicos, em busca de um ideal, isto é, Liberdade.
    Essa é minha modesta interpretaçao de Spartacus.
    Parabens pela belíssima homenagem a esse genio do século XX.
    Saudações cordiais, Kaspar.

    • 6 hwbach March 8, 2011 at 17:08

      Caro Kaspar,
      Obrigado pela visita! Só peço desculpas pela demora em responder!
      Eu só tinha ouvido falar que o próprio Khachaturian veio ao Brasil; obrigado por me confirmar isso.
      Creio que sua interpretação faz muito sentido, pois os compositores soviéticos tinham de fazer piruetas para driblar a censura da ditadura stalinista. Khachaturian sempre foi mais, digamos, “convencional” do que seus compatriotas Prokofiev e Shostakovich (no sentido de “menos experimental”). No entanto, foi alvo do terrível Decreto Jdanov de todo jeito. Assim, creio que, sim, ele podia estar usando o balé como forma de, veladamente, criticar aquela repressão ensandecida.


  1. 1 Famosos desconhecidos 2: Joaquin Rodrigo « He will be Bach Trackback on January 9, 2012 at 20:58

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