Newsroll parte 1 – Desconstruindo e comentando a Folha deste sábado

Eu não costumo ler jornais e revistas que não o Valor Econômico e, bem raramente, a CartaCapital – a qual não, NÃO É a Veja de esquerda, por mais que tenha seus defeitos.

No entanto, hoje, na banca, fiquei chocado com o nível baixo do que estava em exposição. Eu, que já acho que os grandes meios de comunicação já atingiram o fundo do poço.

Assim, inspirei-me a fazer uma leitura crítica e comentários a 3 mídias: Folha, Estadão e Veja.

Começo pela Folha.

1)

Na primeira página, há um excerto do Painel: “Dilma pretende ligar para Lula no fim de semana.”
Que porra é essa?!?!?!?!?!?! Por que uma coisa inócua dessas está na primeira página, na parte superior do jornal? Por que isso toma o espaço que seria devido ao ótimo editorial sobre o Sudão? Por que o Sudão precisa ser escanteado?

São perguntas retóricas. No fundo, eu sei que a Folha fez isso para agradar a parcela anaeróbica de seus leitores, que, a essa altura, já devem estar espumando aos berros “EU SABIA QUE ELA NÃO SERIA CAPAZ DE TOMAR UMA ÚNICA DECISÃO SEM CONSULTAR O LULA!!!” Como se um reles telefonema, ainda mais depois de uma semana cheia de batidas de cabeça com o PMDB, significasse tudo isso. E como se políticos não mantivessem contato com seus “mentores”.

Se o eleito fosse o Serra e ele ligasse para o FHC, duvido que essa notícia boba teria tamanho espaço.

É claro que esse tipo de notícia tem alguma relevância. Mas só o suficiente para aparecer no Painel, na parte de política. Não na primeira página. E, acima de tudo, não tomando o espaço de uma notícia sobre o Sudão, este país tão esquecido até pela esquerda, ocupada demais em berrar que o povo palestino é o mais fudido do mundo graças àqueles judeus malvados.

2) Tendências/debates: A redução de recursos torna a Justiça mais célere?

Tema espinhoso! Botaram o D’Urso, picareta de primeira e presidente da OAB/SP, pelo não, e o presidente da Ajufe – Associação de Juízes Federais -, Babriel Wedy, pelo sim.

Resumo dos argumentos:

D’Urso: 1) O grosso da morosidade da Justiça são vários outros fatores. Assim, 2) reduzir recursos é reduzir garantias do cidadão.

O ponto 2) procede totalmente. Recurso não é artimanha de advogado. É o jeito de a parte que está na Justiça tem para protestar contra uma decisão que entende injusta. O advogado, que freqüentemente leva a culpa por isso, em 99% dos casos é só o mensageiro. Explico isso mais embaixo.

Wedy: 1) É a proliferação de recursos que atrasa a Justiça, e é necessário uma medida de impacto para contê-los. 2) Inibe manobras de advogados maus-caracteres.

Os argumentos de Wedy são os mais fracos, e seu texto tem um forte tom de corporativismo. A Ajufe bateu muita cabeça contra o ex-advogado Gilmar Mendes, mas, agora que é um ex-juiz que está na presidência do STF, o que ele propõe é aplaudido. Afinal, ele não sustenta o ponto (1) com um único número sequer. E o (2) é acusar o mensageiro, como eu escrevi acima:

Imagine você perdendo uma causa. Daí, seu advogado chega e diz: “olha, até tem recurso cabível, mas como eu sou um nobre cidadão preocupado com o país, vou deixar de recorrer, inclusive porque os precedentes lhe são contrários.” Você engole isso facilmente? 99% dos clientes, não. Por isso, os advogados nem falam isso. Se falam, o cliente o dispensa e contrata outro que, com ou sem precedente favorável, vai recorrer.

Claro que existem advogados picaretas também. Mas não são eles que fazem com que um processo leve 52 anos para não ser julgado, como já vi na Justiça Federal de SP (era uma desapropriação – ou melhor, é).

Inclusive, se os advogados maus-caracteres conseguem sucesso, é porque os juízes freqüentemente não têm pulso firme para aplicar punições, ou não são perspicazes o suficiente para perceber as manobras. Quem conhece a prática forense sabe: precisa aprontar MUITA COISA por muito tempo para o juiz dar uma tímida multazinha por litigância de má-fé. Mecanismos para conter isso, até existem. Só não são aplicados.

Wedy traz nenhum número. D”Urso pelo menos trouxe alguns importantíssimos: o TJ-SP está atolado com 20 milhões de processos, e ainda sofrerá cortes orçamentários. Assim, mesmo que acabem com todos os recursos, o TJ vai continuar afogado. Sem funcionário, sem material, sem informatização, sem valorização da carreira, a tendência é continuar assim.

Aproveito para fazer um comentário político: José Serra detesta funcionários públicos indiscriminadamente. Vê-os como inimigos a serem eliminados, sejam professores universitários, juízes, cartorários, pesquisadores de ponta ou picaretas que deixam o paletó na cadeira e somem. Tanto Serra quanto o PSDB de São Paulo pensam assim. Eles são os responsáveis pelo doentio atraso processual de São Paulo. E não é limitar o acesso ao STF e ao STJ que vai resolver isso.

O que está por trás da imensa morosidade judiciária brasileira é incapacidade dos operadores em geral em lidar com múltiplas causas semelhantes. São meia dúzia de entes que atolam o Judiciário: grandes empresas como a Telefônica, grandes bancos e o próprio Estado. Este conta com o bizarro reexame necessário, pelo qual uma ação julgada contra o Estado passa para a instância superior sem que este recorra. Supostamente, para proteger melhor o Tesouro. Só que a conseqüência é atolar os tribunais com processos e mais processos. E ainda, os advogados públicos têm sérias limitações quanto a deixar de recorrer. Podem ser processados por improbidade administrativa se deixarem de recorrer (o que, às vezes, faz sentido). Assim, as orientações de órgãos públicos costuma ser “recorrer até a morte”.

Enquanto os operadores do direito não estiverem preparados para criar e, principalmente, lidar com mecanismos de julgar centenas de causas de uma só vez, o Judiciário vai continuar parado, com ou sem “novo Código de Processo”. Por isso, sempre duvidem de afirmações megalomaníacas como esta.

3)

A Folha agradece aos votos de boas festas recebidos, entre outros, de Índio da Costa e Curiati. Hehe.

4) A pequena entrevista de Andrea Matarazzo

A presença desse sujeito traz péssimos augúrios para a cultura em SP – o que é bem típico de um governo tucano. Seu currículo é medíocre e quase que puramente político. Assim, assemelha-se um pouco com o Reinaldo Azevedo: não tem nenhum preparo, mas tem os contatos certos.

O que me instou a ler a entrevista foi a chamada da capa: “TV Cultura deveria produzir apenas infantis, diz secretário”. Achei acintoso. Só que, lendo a entrevista, vi que não é bem assim.

A entrevista foi muito mal feita. Fala entrevistador carniceiro no Brasil. Ou melhor, como me corrigiram no Hermenauta, “falta entrevistador no Brasil. Ponto.” Primeiro, por isto: “A política cultura do PSDB, em SP, tem como marca a construção de grandes obras. Qual é, a seu ver, o principal papel do Estado na cultura?”

Depois, vêm me falar que a Folha não é conivente com o PSDB. A primeira parte da pergunta contém, em si, uma crítica. Denuncia o tratamento malufista dado pelo PSDB à cultura. Só que a pergunta, propriamente, é de uma generalidade tosca. É como se perguntássemos a Celso Amorim: “A política externa do governo Lula foi marcada por um anti-americanismo infantilóide e quase festivo. Qual é, a seu ver, o papel de um diplomata?”

Quer dizer, dããã.

Segundo: das 12 respostas de Matarazzo, só o final da última expressa aquela opinião sobre o papel da TV Cultura, e não é bem assim. Leiam: “Minha opinião pessoal é que, por ser uma TV pública, a Cultura deveria estimular a produção independente, comprando programas de terceiros. Também deveria comprar programas prontos de canais como o The History Channel ou a Futura, para torná-los acessíveis a quem não tem TV a cabo. A Cultura é referência em produção inantil. Deveria se manter nisso e comprar o resto. Mas isso é uma opinião pessoal porque, como disse, não tenho ingerência nenhuma sobre a TV.”

Quer dizer, o que era um comentário marginal sobre uma coisa impertinente às funções do Secretário de Cultura foi cortado pela metade e transformado em matéria de capa. Lamentável. Realmente, é bem triste ver como a Folha está caindo para o nível Veja de jornalismo.

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