Newsroll 2 – Revolta contra uma manchete do Estadão

Na capa do Estadão de hoje, à direita, consta que “Risco de aids em transfusão no Brasil é 20 vezes superior”

Bom, superior a quem?

“Pesquisa feita em três hemocentros brasileiros entre 2007 e 2008 indica que o risco de contrair HIV em transfusões de sangue no Brasil é 20 vezes maior do que nos Estados Unidos, informa a repórter Lígia Formenti. Uma em cada 100 mil bolsas de sangue pode estar contaminada pelo vírus. Nos EUA, a relação é de 1  para cada 2 milhões (…)”

Com o perdão da expressão, mas que porra é essa de comparar o nosso índice justamente com um dos países mais desenvolvidos do mundo? Nesse caso, é muito complicado comparar as realidades. Além disso, a manchete está descontextualizada: e se, no passado, o risco foi muito pior e a tendência é melhorar?

Ah, sim, a matéria (a maior parte da qual está disponível aqui) responde, logo no 2º parágrafo:

“Embora muito mais elevados do que norte-americanos e de alguns países europeus, os índices brasileiros melhoraram. Versão anterior da pesquisa, de 2006, indicava que 1 em cada 60 mil bolsas poderia estar contaminada pelo HIV. ‘Precisamos avançar na segurança. Mas não há dúvida de que muito já foi feito’, afirma a coordenadora do trabalho, Ester Sabino, da Fundação Pró-Sangue de São Paulo.”

Notem como houve, de certa forma, uma “manipulação”. O que Ester Sabino disse é que melhoramos desde a última pesquisa. O que a repórter fez foi escolher os países mais avançados em saúde do mundo e fazer uma comparação impertinente. Por que não comparar com países com realidades de saúde pública e socioeconômicas mais próximos de nós? Para que criar uma manchete tão assustadora? Eu não sei quais países têm essa realidade mais parecida; o trabalho de um jornalista deveria ser pesquisar para determinar isso. Mas sei bem o abismo que nos separa da Europa e dos EEUU em termos de qualidade dos serviços de saúde.

Além de tudo, a manchete presta um desserviço. Desestimula, indiretamente, a doação de sangue. Quem passa na banca e vê a chamada, sem comprar o jornal e ler a matéria, pode ficar com a impressão de que é só enfiar a agulha que já era. Isso num país em que os bancos de sangue são cronicamente baixos – vide aqui, aqui e aqui, embora os links sejam mais pontuais, pois não achei um estudo mais profundo a respeito para fundamentar nem na SciElo.

Se a reportagem como um todo não fosse tão ruim, eu diria que tudo isso é só para não dar a entender que houve algum progresso no governo Lula. Essa hipótese conspiratória é provável porque, quem conhece o Estadão sabe que ele é capaz de fazer uma manchete de inutilidade pública só para não falar que o governo Lula tem um numerozinho positivo lá perdido numa parte específica do imenso campo que é a saúde pública.

É claro que isso só acontece porque ele não é “um jornal a serviço do Brasil”, como a Folha. Se escrevesse isso no frontispício, ah, aí sim, magicamente ele passaria a fazer bom jornalismo.

BOM, prosseguindo.

O quadro abaixo da matéria também é exemplo de mau jornalismo (infelizmente, não está disponível no site): a manchete diz “Adoção de exames mais seguros está atrasada”. Mas, como acontece com muitas matérias do Estadão, o conteúdo, se não contradiz francamente, não bate com a manchete.

“O coordenador da Política de Sangue e Hemoderivados do Ministério da Saúde, Guilherme Genovez, afirmou que até o início do segundo semestre estarão em funcionamento pelo menos oito plataformas para realização de exames NAT (para detecção mais eficaz do HIV) em hemocentros do país.

Os exames, que reduzem de forma significativa a janela imunológica de HIV e hepatite C, foram desenvolvidos pela Fiocruz e estão sendo usados, em caráter experimental, em alguns pontos do País, como São Paulo, Santa Catarina, Rio e Pernambuco.

Genovez reconhece que a implantação do projeto está atrasada. ‘Há exigências legais, burocracia que muitas vezes impede a agilidade necessária’, afirmou.”

Peraí. Aparentemente, a menos que Genovez não tenha sido citado literalmente, quem falou que a implantação está atrasada foi a repórter. Mas vamos supor que ele só não tenha sido citado literalmente. Fica a dúvida: está atrasado com que parâmetro? O cronograma do governo não é relatado em momento algum. Está quão atrasado? Muito? Pouco? Está atrasado cronologicamente ou geograficamente (quer dizer, deveria estar sendo experimentado também em outros Estados)?

Esse mesmo Genovez não parece uma fonte credenciada, apesar de seu cargo. Vejam como foi feita a pesquisa de Ester:

“Financiado pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH, em inglês), o levantamento coordenado por Ester foi feito a partir da análise de bolsas de sangue coletadas nos hemocentros de São Paulo, Minas e Pernambuco.”

E vejam como ele critica de maneira sensata, ponderada e fundamentada:

” ‘Eles estão mais para um oráculo. Foram feitos por estatística, não podem ser considerados fato’, observou. Para mostrar a segurança do sangue no Brasil, Genovez cita um levantamento feito em 130 mil bolsas de sangue coletadas em hemocentros de Santa Catarina, São Paulo, Rio e Pernambuco: o vírus não foi identificado em nenhuma amostra.”

Gente. Parem e pensem. 1) O vírus pode não ter sido identificado justamente por causa da “janela imunológica”. 2) A amostra dele pode estar errada. Quem já perdeu muitas partidas de Settlers of Catan sabe que a Estatística é uma formidável, pesquisada e fundamentada sistematização de… chutes. Mas continua sendo, essencialmente, um monte de chutes. Às vezes, você aposta em todos os números mais prováveis e os dados só soltam consecutivamente números raros. 3) O trabalho de Ester não foi feito com base em estatística. Foi feito com base em “análise de bolsas de sangue”. Querem que repita? “ANÁLISE DE BOLSAS DE SANGUE”. Alô, Terra? Querem que desenhe? A pesquisa foi feita com base empírica, como a própria reportagem diz.

Em suma: o Estadão 1) destacou uma manchete desnecessariamente assustadora, prestando um desserviço; 2) a manchete da “sub-reportagem” (aquela que não está disponível) não bate com o texto da própria “sub-reportagem”; 3) a fonte usada para apresentar o “outro lado” usou um contra-argumento quase reinaldiano em sua tosquice.

É foda…

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