Bloody Sunday: meia justiça, meio Halley depois

Eram poucos. Do esquadrão de elite, mas muito poucos. Por serem do esquadrão de elite, seu reflexo é neuroticamente aguçado, e para atirar. Atirar para matar.

Deve ter começado com um estouro, forte e súbito, vindo de sei lá onde. Ou com uma ameaça putativa. Um grito de socorro do colega. Hoje, não importa. Importa que isso fez com que o primeiro soldado desse o primeiro tiro.

Num grupo de elite coeso, no meio daquela bagunça, não dá tempo de parar para perguntar: “com licença, estamos ameaçados mesmo?” Confia-se no colega. Se alguém atirou numa simples manifestação de civis, é porque tem algo a mais. Então, todo mundo começa a atirar.

Minutos depois, civis desarmados jazem mortos, feridos, fuzilados.

O destacamento que atirou foi de para-quedistas. Na maior parte dos exércitos do mundo, os para-quedistas são o top do top, afinal, você só os lança bem no âmago do território inimigo. Se a equipe não for a nata da elite, vira picadinho.
Assim, independentemente de qual foi o soldado que deu o primeiro tiro, é óbvio que o governo britânico foi diretamente responsável. Mandar uma tropa essencialmente guerreira no meio de civis foi uma insanidade que não ia dar coisa boa. Arrisco a dizer: não era para dar coisa boa mesmo. Ou a Inglaterra via a Irlanda como “território inimigo não explorado”?

Que bom que o Relatório Saville, finalmente, concluiu pela inocência dos civis mortos no Domingo Sangrento – e, por conseguinte, pela responsabilização dos atiradores. Notem a insanidade: era a responsabilidade das vítimas que estava sendo investigada diretamente. Como profetizou Lennon, que escreveu sua própria Sunday Bloody Sunday bem antes (e melhor) do que o U2: “Is there any one amongst you / Dare to blame it on the kids?”

O passo seguinte será não ficar por isso mesmo, isto é, os soldados receberem toda a culpa, virando bodes expiatórios. O governo britânico deve ser responsabilizado – financeiramente.

É claro que não há dinheiro que faça aquela desgraça deixar de ter ocorrido. Mas como o bolso é o órgão que mais dói, quem sabe assim o Estado não sente um pouquinho da dor dos familiares das vítimas. Estado, leia-se, os súditos britânicos. Talvez os faça pensar melhor que, talvez, deixar a Irlanda para os irlandeses seja mais negócio.

Curiosamente, o relatório levou 38 anos para ser concluído – exatamente a metade do tempo que leva para o Cometa Halley passar para tomar um chá conosco.

76 anos...

Vamos torcer para que a Justiça Britânica não leve ainda 38 anos para justiçar.

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1 Response to “Bloody Sunday: meia justiça, meio Halley depois”


  1. 1 opatriarcacontemporaneo June 16, 2010 at 16:18

    Pior que levar tiro na testa de tropas de elite, é ser processado por 38 anos… Haja nervos de aço…

    Abs 🙂


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