Uma quarta-feira na ópera: Richard Strauss

[Hab mir’s gelobt – Trio final de Der Rosenkavalier, ópera em 3 atos]

Strauß (1864-1949) é conhecido do grande público apenas por causa do prelúdio de seu poema sinfônico Assim Falou Zaratustra, usado por Kubrick na antológica abertura de 2001: Uma Odisséia no Espaço. Entretanto, o melhor de seus talentos de compositor e orquestrador foram vertidos… na ópera!

A terceira delas, Salomé, minha favorita, foi um tremendo de um escândalo. O libreto, que ele mesmo fez a partir da peça homônima de Wilde, já é bastante violento. Além de tudo, a música é altamente impactante, com fortes dissonâncias, eletrizante do começo ao fim; foi, por assim dizer, o equivalente da Sagração da Primavera na ópera. Com direito a um striptease da soprano no meio (A Dança dos Sete Véus). Imaginem tudo isso em 1905…

Sua ópera seguinte, Elektra, seguiu na mesma linha, tendo música ainda mais agressiva e mais pesada. Tudo indicava para um compositor “progressivamente” “moderno”, cada vez mais distante da sua formação romântica.

Porém, por motivos até hoje não muito bem esclarecidos, a partir da ópera seguinte ele “retrocedeu” à linguagem neo-romântica. Trata-se dO Cavaleiro da Rosa, linkado acima, e ainda hoje sua ópera mais popular.

O único problema de suas óperas, particularmente do Cavaleiro, é que Strauß herdou de Wagner a técnica da ópera  “contínua”, isto é, sem as quebras de recitativo e ária. Isso, embora dê muito mais coesão, pode deixar a obra bastante cansativa até mesmo para quem já a conhece, e, de fato, O Cavaleiro da Rosa é como uma massa quase ininterrupta de 3 horas e meia de cantoria. Dose para leão.

Tanto é assim que o próprio Strauss, regendo a estréia dessa ópera, num dos intervalos, vira-se para o primeiro violinista da orquestra e pergunta:

– Essa coisa não acaba nunca?

Bom, de qualquer modo, o vídeo deste post mostra o penúltimo “pedaço” da ópera – um estático trio de vozes femininas que transborda uma beleza absurda de bela. O que quer que seja o sublime, está perfeitamente representado nesse trio.

O enredo do trio: a marechala (Renée Fleming, ao centro), percebendo que seu querido amante Octavian (Sophie Koch, a moça de cabelo comprido à direita) se apaixonou por Sofie (Diana Damrau, a loirinha à esquerda), dele abre mão, estoicamente o dispensando de seu compromisso para que ele possa ficar com Sofie.

E assim, o trio abre com as palavras da marechala: Hab mir’s gelobt ihn lieb zu haben in der richtigen Weis, dass ich selbst sein Lieb zu einer andern noch lieb hab. Traduzindo livremente: “Eu me fiz uma promessa de que eu te amaria da maneira certa, amando até mesmo a mulher que você amasse” (ou “lhe amando mesmo que você amasse outra”).

O Cavaleiro certamente não é uma boa obra para iniciar um leigo. Mas esse trio, sim, pois é estapafurdiamente bonito.

Observação: É normal que, na ópera, o papel masculino seja escrito para voz feminina. Especialmente no caso das óperas cômicas do século XVIII, que Strauß homenageia com o Cavaleiro da Rosa.

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