Histeria na Literatura – parte 1

Tenho certeza de que os psicólogos vão ficar furiosos comigo por usar um termo tecnicamente impreciso como “histeria”, e têm muitas razões para isso. Que fiquem. Para efeitos do meu blog, que seja vago mesmo, pois descreve um transtorno vago, a saber, um nojo irracional e incontrolável da mulher em relação a sexo.

Estou me lixando para a imprecisão técnica porque esse conceito cai como uma luva em algumas manifestações literárias e mitológicas, e são elas que me importam.

[Spoiler alert!!!!! Cuidado!]

A mais óbvia dessas manifestações é o On Chesil Beach, de Ian McEwan, em que, aliás, a histeria é tratada de maneira central. É o distúrbio que acomete a protagonista feminina, Florence. Para ela, a relação sexual “não é algo a acrescentar à sua felicidade [conjugal], é um preço a pagar por ela”; ou ainda, “algo como um procedimento cirúrgico nos olhos”.

Isso leva à frustração de sua noite de núpcias e, a seguir, a uma tentativa de discussão de relação na praia, homônima do livro, onde fica o hotel onde pousavam. “Tentativa” porque nenhum dos dois consegue dizer o que realmente pensa, e a coisa vai piorando cada vez mais, até Florence finalmente conseguir descrever seu problema ao marido Edward, e chega ao ponto de propor (em 1962!) que ela deveria fazer análise psicológica para resolver esse problema. O trágico é que Edward não quer nem saber; ambos se separam, e permanecem semi-mortos pelo resto de suas vidas. Como no perfeito soneto machadesco A Carolina: “E ora mortos nos deixa, e separados.”

Depois de ter lido essa obra, matutei bastante. Depois de bem matutado, fiquei pasmo de lembrar que houve tratamento literário da histeria bem  aqui em terras tupiniquins. Obviamente, na obra do primeiro, do glorioso, do único (palmas, palmas!), do infalível Machadão.

Trata-se do conto A Desejada das Gentes, que integra a coleção Várias Histórias. O narrador e seu amigo caminham pelo Rio, e, em certa altura, o narrador sem nome rememora seu amor por Quintília (a antonomasiada do título). Começou como uma brincadeira, pois Quintília tinha fama de ser tão bela quanto inexpugnável. Em pouco tempo, estava perdidamente apaixonado por ela, e, como algumas releituras do conto mostram, ela por ele, embora não o expressasse.

O namoro durou semanas, meses, aparentemente até poucos anos, e ambos continuavam como amigos muito íntimos – estranhamente íntimos. Em certa altura, o narrador se enche de coragem e a pede em casamento. A resposta, para estupefação do narrador (e do leitor), foi: “Casar para quê? É melhor que continuemos como amigos.” Com a recusa, separam-se, mas logo reatam, e continuam esse estranho casamento espiritual até a morte dela. Conta que passou “os últimos dois dias, até 20 de abril, ao pé da minha noiva moribunda, e abracei-a pela primeira vez, feita cadáver.” E conclui:

“Não sei o que dirá a sua fisiologia. A minha, que é de profano, crê que aquela moça tinha ao casamento uma aversão puramente física. Casou meio defunta, às portas do nada. Chame-lhe monstro, se quiser, mas acrescente divino.”

Da primeira vez que li, fiquei completamente sem entender. Pensava “mas que diabos, por que teve de ser assim, se eles se amavam?”

O livro de McEwan, porém, deu-me a chave para traduzir o conto: é só trocar “casamento” por “sexo” que tudo faz sentido. Eureka! Releiam o retrato da Florence. Releiam o parágrafo machadesco, agora com essa chave – e o conto ficará claro como a luz. Quintília amava o narrador com todo o coração, mas a totalidade de seu amor excluía a consumação física. Assim como na Florence, uma clara cisão mental entre “amor” como uma coisa muito boa e “sexo” como outra totalmente repugnante, até mortífera.

Machadão foi um fino psicanalista décadas antes do desenvolvimento da psicanálise. Faltava-lhe o vocabulário que ainda estavam por inventar, e, ademais, ele é escritor, escreve figurativamente. Em seus contos, ora aparecem um sádico e um alienista obcecado; aqui, aparece alguém com inveja patolótica; ali, outro sofre de fetiche por dinheiro – mas, claro, nunca com esses nomes. Neste conto, figurou uma histérica, literariamente pintada como “monstro divino”.

Notem um ponto comum nas obras: num e noutro caso, a mulher não se torna histérica “por causa” de um ou outro fator. Florence, sobre a qual temos mais detalhes “clínicos”, foi criada numa família razoavelmente arreligiosa e, de certa forma, até liberal, e não sofreu qualquer tipo de abuso sexual. Por isso que “histeria” é um termo tão vago: mal se sabe o que a provoca!

O êxito dessa interpretação machadesca me levou a outros textos, mas agora a um mito; mais especificamente, ao tratamento que lhe deram dois escritores: o mito da sereia.

São eles Hans C. Andersen e o fanfarrão-mor Oscar Wilde. A sereia é uma manifestação mitológica perfeita da histérica: a mulher que só o é da cintura para cima. Mais do que não ter vagina, não tem pernas, ou seja, não tem autonomia emocional.

O cotejo dos dois contos me levou à conclusão de que Wilde vai além de dialogar – ele “responde” a Andersen, até lhe esclarece alguns pontos. De uma maneira geral, Andersen retrata o ponto de vista da histérica. Wilde retrata o ponto de vista do homem que se apaixona por ela – daí os contos se chamarem A Pequena Sereia e O Pescador e sua Alma. Num, o foco é a sereia; no outro, embora a sereia tenha um papel fundamental na vida (e morte) do pescador, ela nem consta no título, pois o foco é o pescador.

Tratarei disso em detalhes no post seguinte. A 3ª temporada de House me chama!

Advertisements

1 Response to “Histeria na Literatura – parte 1”


  1. 1 Alessandra May 17, 2010 at 11:02

    Vou ler tudo ! Prometo !


Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s




Últimas piadas

Calendário gregoriano

May 2010
M T W T F S S
« Apr   Jun »
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  

Almas perdidas

  • 9,926 almas

%d bloggers like this: