Dia internacional da lembrança da luta pela igualização dos direitos da mulher aos do homem

Esse enorme título é o nome completo da comemoração do dia 8 de março. Metonimicamente, dizemos simplesmente “Dia Internacional da Mulher” . O problema é que é fácil notar que a abreviação tem tomado o lugar do nome, e o sentido do 8 de março está um tanto quanto embotado, afogado em meio a lembranças, anúncios e promoções especiais fofinhos e rosinhas. A parte apaga a memória do conteúdo do todo. Chega a ser irônico: o dia da luta pela igualdade das mulheres é “comemorado” com um mundaréu de estereótipos – fofura, cor de rosa e os falsos elogios de que Lennon já alertava: While putting her down we pretend that she’s above us.

Assim, é sempre bom beber da história para refrescar a  memória: O 8 de março foi escolhido, entre outros motivos, em razão de um horrendo incêndio numa fábrica dos Estados Unidos em 1911, cujas vítimas foram principalmente mulheres. Assim, quando vejo, hoje, anúncios como “vocês são especiais” ou “hoje é o seu dia”, fico muito incomodado. É impressionante como o caráter trágico e engajado da data foi transmutado numa coisa tão amena. E como as mulheres só tivessem voz uma vez por ano. Uma catártica data de mudança foi absorvida e reciclada como conformidade.

O cartunista Laerte satirizou isso numa fantástica tira que não consigo encontrar: 5 marmanjos estão amontoados num sofá, com a pobre mãe espremida no meio. Um deles diz: “Hoje é dia das mães. Vamos deixar a mamãe assistir um pouco de TV Mulher!” Outro responde: “Tá, mas só no intervalo do jogo”.
(Quem achar essa tira ganha um sorvete. De creme.)

Assim, vou, a seguir, restaurar um pouquinho da pitada revolucionária do dia a partir de 2 notícias.

A primeira, já mais ou menos antiga e sabida, é daquele juiz de Sete Lagoas que, em meio a várias insanidades, afirmou a inconstitucionalidade da Lei Maria da Penha. Afinal, a mulher, sendo instrumento do demônio, deve ser controlada pelo homem, inclusive e principalmente com violência. Seria excelente se essa argumentação burlesca fosse a única resistência encontrada pela Lei. Entretanto, como cita esta juíza, houve quem sustentasse a inconstitucionalidade dessa Lei por “privilegiar” as mulheres! Acho surreal alguém sequer pensar isso. Pior ainda, publicar. Não perceber que, já faz um bom tempinho (tipo uns 2500 anos), nossa sociedade é claramente patriarcal, e que desigualações corrigem desigualdades, ou é uma enorme cegueira ou desabrida má-fé.

A segunda é um artigo da Slate, que fala sobre uma “volta” da repressão sexual. Segundo a autora, há ciclos de liberdade/repressão sexual.

O problema é que, quando falamos de “repressão sexual”, invariavelmente falamos de “repressão sexual feminina“. Quando Agamêmnon volta trinunfante de Tróia, é natural que ele tenha trazido uma presa de guerra – traduzindo para bom português, escrava sexual. Igualmente natural é a profunda indignação dos deuses com a vingança de sua esposa Clitemnestra. Ela, por ter se revoltado contra isso, traiu o marido. O marido, que  sacrificou a própria filha por causa do irmão corno e esperava que a esposa achasse maneiro ele entrar triunfalmente na cidade com a ex-futura amante fixa a tiracolo, é o coitadinho.
(Obs.: É claro que há muitos mais motivos para a reprovação do ato de Clitemnestra, inclusive, er, o de ser um assassinato, o qual não chancelo. Mas não convém desenvolver isso agora.)

2300 anos depois, Conceição, personagem feminina da Missa do Galo, magistral conto do glorioso Machadão, acha “até muito direito” seu marido ter amante fixa.

Mais recentemente, Ian McEwan, em On Chesil Beach, situado em 1962, fala de um casal virgem na noite de núpcias. Ele, apesar da insegurança, até que se sai bem. Ela, porém, sofre de um irracional e insuportável asco de sexo. Ou seja, quem está sujeito a ter nojo do maior dos prazeres é a mulher.

E hoje, como se não bastasse, apesar da revolução sexual, ainda temos a perspectiva de que, conforme a Slate alerta, a repressão recrudesça.

Enfim, espero que todos quantos leiam esse humilde (ha, ha) post passem a olhar além das expressões abreviadas que critiquei e a manter a consciência do que nelas está velado. Ou, parafraseando a Clarice, que evitem deixar que a metonímia esmague o todo.

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9 Responses to “Dia internacional da lembrança da luta pela igualização dos direitos da mulher aos do homem”


  1. 1 Adriana March 9, 2010 at 23:01

    Até que enfim, teremos o quarto cara mais inteligente que eu conheço (meu pai, marido e o NPTO estão na frente) na rede, falando e se expondo. Cara, escrever é tudo. Bjs e te amo muito!

  2. 2 opatriarcacontemporaneo March 10, 2010 at 16:27

    Olá, caro Bach.

    Subscrevo o que disse a Adriana acima- sem qualquer dúvida!

    Apesar de achar que Lei Maria da Penha incentive alguns exageros, como denuncismos, reconheço, claro o drama de quem sofre uma violência, de qualquer tipo, seja mulher, homem, criança ou eteceteras 🙂

    Abs!

    Pôxa, adoro que citem o Lennon!

  3. 3 Hermenauta March 10, 2010 at 18:01

    Parabéns!

    Mas porque o link do blog ficou “o inferno seja bach”? 🙂

    • 4 He will be Bach March 11, 2010 at 12:50

      Ô, rapaz, valeu pela visita!
      1) O domínio hewillbebach já estava cadastrado. Droga.
      2) Segundo o Neil Gaiman e o Terry Pratchett, apenas Elgar e Liszt estão no Céu. Todos os outros, inclusive “all the Bachs”, estão no Inferno. 🙂

      • 5 vtYojr March 24, 2010 at 20:29

        Eu conheci um cara que dizia que era o Liszt reencarnado e sem talento.
        Acho que era mentira, mas o cara não tinha cara que pudesse frequentar o céu.

  4. 6 He will be Bach March 11, 2010 at 12:53

    Adriana,
    Queira incluir-se na lista, viu? 🙂

    Patriarca,
    Obrigado pela visita! Bom, creio que os denuncismos são grandemente compensados pela proteção conferida. Sacumé, conflito de direitos, Alexy, aquela coisa toda.
    E, sim, Lennon é demais!

  5. 7 Lu Botter March 11, 2010 at 21:35

    Oi!!!
    Tardei, mas cheguei!!
    Adorei o texto e a reflexão…e o fato de que terei mais um blog para as minhas rotineiras leituras internéticas!
    Boa sorte, “caro amigo”
    Bjo grande!

  6. 8 vtYojr March 24, 2010 at 20:32

    “…em processo de se tornar o que é”?
    O sr. se rendeu a Hegel?


  1. 1 8 de março e aniversário do blog « He will be Bach Trackback on March 8, 2011 at 17:04

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