Pois é, Teerã deixou claro que está com saudades de Lula. Estou rindo à toa. Por quê?
Não sou simpático ao regime ditatorial e teocrático de Khameini, Ahmadinejad etc. Mas outra coisa também me revolta: ver pessoas supostamente de “esquerda” defendendo esses facínoras. Ninguém admite, mas a única razão é que esses facínoras específicos falam mal dos Estados Unidos.
Tenho absoluta certeza de que, se Ahmadinejad fizesse as mesmas coisas que faz hoje, mas inserisse isso num discurso pró-Washington, muitas das mesmas pessoas que hoje o defendem estariam a tacar-lhe pedras loucamente.
Não podemos ser cegos de apoiar ou criticar regimes políticos exclusivamente em função do alinhamento aos Estados Unidos. Os EUA, com todos os seus defeitos, não são o mal absoluto. Estão muito longe disso, embora até tentem algumas aproximações. No plano discursivo, quem está realmente perto do mal absoluto é o próprio Ahmadinejad, com sua retórica de negar o Holocausto.
Afinal, dada a escolha, estou certo de que essas pessoas prefeririam morar nos EUA a morar no Irã. Se não preferissem, deveriam, pois, até onde sei, no Irã atual, lugar de comunista é no paredão. Nos Estados Unidos… bem, é a universidade. Afina, o próprio Idelber Avelar brinca dizendo que o melhor lugar do mundo para estudar marxismo são os próprios EUA.
Se fosse Israel que tivesse dito que almeja “varrer a Palestina do mapa”, duvide-o-dó que haveria um único diplomata brasileiro dizendo “tadinho, Israel foi mal compreendido pelo ocidente quando disse isso… não que eu esteja defendendo…”
Bom, a Dilma pode até estar melhorzinha nesse particular, mas os DHs aqui estão bem precarizados.
Mas atendo-me ao assunto do post: não defendo o Irã de modo algum, mas acho meio ruim esse argumento do “preferir morar nos EUA”. Ele é usado o tempo todo pela anaerobicidade em flor para justificar qualquer desgraça da qual os EUA façam parte. Aliás, curioso citar o Idelber que já fez o seu não é bem assim…” para com o Irã e seu fantoche de aiatolás Ahmadinejad.
Num ponto você tem razão, então vale a pena esclarecer que eu me referia ao caso narrado pelo Sakamoto:
Durante as brigas pelo banimento do amianto, um advogado que defendia o interesses dos trabalhadores trouxe um pedaço do produto para ser mostrado em uma audiência judicial com os que defendiam as empresas. O amianto, acusado de causar danos à saúde dos trabalhadores, circulou na mesa. Do lado corporativo, que defendia que o produto era inofensivo como uma bola de gude, ninguém quis tocá-lo.
(http://blogdosakamoto.uol.com.br/2011/03/24/faltam-estudos-e-nao-ha-evidencias/)
Quanto ao Idelber, as ponderações dele são bem razoáveis, mas não concordo com a conclusão. Se o problema é coerência (vocês reclamam do Ahmadinejad mas não do Bush), e se devemos apoiar quem luta por direitos civis no Irã, então não cabe dizer “Bem-vindo, Ahmadinejad!”, pois seria a mesma coisa que dizer “Bem-vindo, Bush!”
Minha conclusão é a oposta. Não realmente espero que chefes de Estado fiquem mostrando a língua para todo e qualquer violador de direitos humanos, inclusive porque o Brasil está beeeeeeeeem atrasado nesse ponto. Mas eu espero que a sociedade civil proteste consistentemente. Celebrar a vinda de um Ahmadinejad e criticar a de um Bush é invalidar toda a argumentação anterior, porque é simplesmente o inverso de criticar Ahmadinejad e calar-se quanto a Bush.
Concedamos que Ahmadinejad pode não ter dito que quer varrer Israel do mapa. Mas, lá nas Nações Unidas, que ele falou coisa feia, falou (http://democraciapolitica.blogspot.com/2011/09/integra-do-discurso-de-ahmadinejad-ira.html):
Servindo-se de uma rede imperial de imprensa e comunicações, que sempre esteve como ainda está sob a influência do pensamento colonialista, ameaçam qualquer opinião que discuta a versão oficial do Holocausto, do 11 de setembro e da violência dos exércitos invasores e ocupantes.
E também não acho que vale dizer “ah, ele é só um fantoche dos aiatolás”. Afinal, alguém diz que o que a Gleisi fala não vale porque ele é só ministra, e não a presidente?
Resumo da ópera: não dá para fechar os olhos a uma possível construção de bomba atômica sob o pretexto de que é tudo um lobby sionista. Conspiracionismo tem limites. Sem contar que quem é mais ameaçado por bomba atômica no Irã não é nem Israel, que, caham, já tem um arsenalzinho próprio bem questionável. São os outros países.
Resumo do resumo: está tudo uma merda!